Sobretaxa de 25% deve reduzir margens do açúcar e redirecionar exportações de etanol, com maior impacto sobre usinas do Norte e Nordeste
A tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acendeu um alerta no setor sucroenergético. Embora o impacto seja limitado para o mercado brasileiro como um todo, a medida pressiona diretamente usinas do Norte e Nordeste, especialmente em cadeias que dependem de acesso preferencial ao mercado norte-americano.
A sobretaxa foi anunciada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, e deve entrar em vigor em 22 de julho. O governo americano justificou a medida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, alegando práticas comerciais consideradas desleais pelo Brasil.
O governo brasileiro rejeita essa leitura. Em declaração pública, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que as tarifas “não têm justificativa” e “não têm lastro com a realidade”, classificando a medida como politicamente motivada.
Para açúcar e etanol, o efeito é desigual. O Centro-Sul, principal polo produtor do país, tende a sentir pouco impacto direto. Já as usinas nordestinas, que operam com custos mais altos e utilizam mercados preferenciais como parte da estratégia de rentabilidade, ficam mais expostas.
Etanol deve perder mercado nos EUA
No etanol, o Brasil exporta anualmente para os Estados Unidos entre 250 mil e 350 mil metros cúbicos de etanol carburante, usado na mistura da gasolina americana, segundo análise da Hedgepoint Global Markets.
Dados citados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia, a Unica, mostram que os Estados Unidos compraram 253 milhões de litros de etanol brasileiro em 2025, em um total de US$ 163 milhões. Com esse volume, o país foi o segundo principal destino das exportações brasileiras do combustível, atrás apenas da Coreia do Sul.
Apesar da relevância para determinados fluxos regionais, o volume é pequeno diante do mercado brasileiro. A exposição maior está nas usinas do Nordeste, especialmente em Pernambuco e Alagoas, que concentram parte relevante da produção destinada aos Estados Unidos.
Com a tarifa de 25%, a tendência é que esse fluxo praticamente deixe de existir. Outros fornecedores passam a ter vantagem competitiva no mercado norte-americano, reduzindo o espaço para o etanol brasileiro.
Na avaliação da Hedgepoint, cerca de 300 mil metros cúbicos de etanol deverão ser redirecionados ao mercado doméstico ou a outros destinos de exportação.
Para o mercado brasileiro, esse volume não deve gerar problema de absorção. A demanda doméstica por etanol carburante vem crescendo em 2026, impulsionada pelo aumento da frota e pela ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32%.
O impacto, portanto, tende a aparecer mais em preço e margem do que em oferta. Em um mercado interno já pressionado, o redirecionamento adiciona volume, mas em escala pouco representativa diante do consumo nacional.
Disputa expõe assimetria comercial
A Unica avaliou que a nova tarifa ignora diferenças relevantes na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Segundo a entidade, o açúcar brasileiro já enfrenta tarifas e limitações para acessar o mercado americano, enquanto o Brasil não impõe restrições equivalentes ao etanol dos Estados Unidos.
Um dos argumentos do USTR envolve a suposta dificuldade de acesso ao mercado brasileiro de etanol. A União Nacional do Etanol de Milho, a Unem, rebate essa leitura ao afirmar que a tarifa brasileira aplicada ao etanol importado segue regras da Organização Mundial do Comércio e não descumpre acordos bilaterais com os Estados Unidos.
A entidade também sustenta que a queda nas importações de etanol americano decorre da expansão da produção brasileira de etanol de milho, que aumentou a oferta doméstica e reduziu a necessidade de compras externas.
A avaliação dialoga com a transformação recente do setor. Tradicionalmente concentrada na cana-de-açúcar, a produção brasileira de etanol passou a contar com avanço acelerado do etanol de milho, especialmente no Centro-Oeste, ampliando a capacidade nacional de abastecimento.
Para Renato Cunha, presidente-executivo da NovaBio, a tarifa americana revela uma tentativa de ampliar vendas de etanol ao Brasil sem contrapartidas equivalentes para o açúcar brasileiro.
“Eles querem vender etanol para um país que não precisa importar esse produto. Isso não é negociação, é imposição”, afirmou Cunha.
Açúcar perde parte do prêmio
No açúcar, o impacto tende a ser mais relevante para as usinas do Norte e Nordeste.
Os Estados Unidos importaram 420 mil toneladas de açúcar brasileiro em 2025, volume inferior a 1,12 milhão de tonelada embarcada em 2024, segundo dados citados pela Unica.
Dentro desse fluxo, há uma cota anual de aproximadamente 150 mil toneladas destinada ao Brasil. Por decisão do governo brasileiro, essa cota é distribuída integralmente às usinas do Norte e Nordeste, como forma de compensar custos de produção superiores aos do Centro-Sul.
A importância da cota está no prêmio. O mercado americano é protegido por tarifas elevadas e sistema de cotas. A parcela destinada ao Brasil entra sem imposto e permite acesso a um preço que, segundo a Hedgepoint, é aproximadamente o dobro do praticado no mercado internacional.
Essa diferença torna a operação altamente rentável para as usinas nordestinas, com margens superiores às obtidas no mercado doméstico ou no mercado internacional livre.
Com a tarifa adicional de 25%, essa rentabilidade será reduzida. Ainda assim, a avaliação da Hedgepoint é que exportar para os Estados Unidos dentro da cota continua sendo mais vantajoso do que direcionar o açúcar ao mercado interno ou ao mercado internacional sem preferência tarifária. Nesse sentido, a expectativa seria que as exportações sigam ocorrendo, mas com margens menores.
Custo regional amplia exposição
O tarifaço evidencia uma diferença estrutural dentro do setor sucroenergético brasileiro.
As usinas do Nordeste operam com custos mais elevados em relação às unidades do Centro-Sul. Entre os fatores estão características geográficas, áreas mais montanhosas, menor produtividade agrícola, menor escala industrial e custos fixos unitários mais altos.
Ao mesmo tempo, essas usinas contam com vantagens logísticas. A proximidade dos portos reduz custos de exportação e favorece o transporte marítimo para determinados mercados consumidores.
Nesse equilíbrio, cotas preferenciais dos Estados Unidos e da União Europeia funcionam como mecanismos relevantes de compensação. Elas permitem acesso a mercados que pagam prêmios superiores aos preços internacionais e ajudam a sustentar a competitividade regional.
A tarifa americana não elimina essa lógica, mas reduz parte do ganho que justificava a operação. Para as usinas afetadas, a discussão passa a ser menos sobre volume e mais sobre margem.
União Europeia pode ganhar peso
Uma alternativa para reduzir os efeitos da tarifa americana está no redirecionamento parcial das exportações para a União Europeia.
Com o acordo Mercosul-União Europeia, foi ampliado o volume de açúcar brasileiro que poderá acessar o mercado europeu com preferência tarifária. A nova cota é de aproximadamente 180 mil toneladas sem imposto de importação.
O Brasil disputará esse espaço com os demais países do Mercosul, mas tem vantagem competitiva para ocupar parte relevante do volume, especialmente por meio das usinas do Nordeste.
Na avaliação da Hedgepoint, essa alternativa pode compensar parte da perda de rentabilidade provocada pelas tarifas dos Estados Unidos, ainda que não elimine totalmente o impacto para as unidades mais dependentes da cota americana.
Risco maior está em novas tarifas
O principal ponto de atenção, daqui para frente, é a possibilidade de novas medidas tarifárias por parte do governo americano.
Caso novas sobretaxas sejam aplicadas, o impacto sobre a rentabilidade das exportações pode se tornar mais forte. No cenário atual, porém, a exportação de açúcar dentro da cota americana ainda apresenta vantagem econômica em relação às alternativas disponíveis.
Para Murilo Mello, head de açúcar nas Américas da Hedgepoint Global Markets, a tarifa de 25% deve reduzir a rentabilidade das exportações de açúcar das usinas do Norte e Nordeste e praticamente eliminar as exportações brasileiras de etanol para os Estados Unidos. Ainda assim, o efeito permanece concentrado nessas usinas.
Do ponto de vista do mercado brasileiro, a leitura é menos dramática. O etanol redirecionado pode ser absorvido pela demanda doméstica, enquanto o açúcar deve continuar seguindo para os Estados Unidos dentro da cota existente, ainda que com margens menores.
O tarifaço, portanto, expõe a vulnerabilidade de usinas que dependem de acesso preferencial a mercados premium para compensar diferenças estruturais de custo.


















