Agroindústria perde ritmo em maio

PIMAgro aponta queda de 2,8% na produção agroindustrial, com recuo em alimentos, bebidas, insumos e produtos florestais

A agroindústria brasileira perdeu tração em maio de 2026. Após duas altas interanuais consecutivas, o volume de produção do setor caiu 2,8% na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo o Índice de Produção Agroindustrial, o PIMAgro, elaborado pelo FGVAgro.

O resultado levou o acumulado do ano para terreno negativo, com leve retração de 0,1%. Até abril, a agroindústria ainda avançava 0,7% em 2026 e superava o desempenho da indústria de transformação. Em maio, esse quadro se inverteu: enquanto a agroindústria passou a recuar, a indústria de transformação manteve alta de 0,2% no acumulado do ano.

Na leitura mensal com ajuste sazonal, a produção agroindustrial também cedeu, com queda de 0,2% em relação a abril. O recuo, porém, ficou concentrado em Produtos Alimentícios e Bebidas, que caíram 0,9%, enquanto Produtos Não Alimentícios avançaram 0,6%.

O dado coloca o setor em uma zona de atenção. A questão, a partir das próximas divulgações, será entender se maio representou uma interrupção pontual na trajetória recente ou se antecipa uma perda mais ampla de resiliência da agroindústria.

Alimentos e bebidas puxam retração

A principal mudança veio do segmento de Produtos Alimentícios e Bebidas, que caiu 3,5% frente a maio de 2025.

O movimento marca uma virada em relação a abril, quando os Produtos Alimentícios haviam registrado alta de 3,3%. Em maio, o setor passou a uma contração de 3,7%, tornando-se um dos principais vetores negativos do índice.

Dentro dos alimentos, a queda foi mais intensa nos produtos de origem vegetal, com retração de 6,9%. Segundo o FGVAgro, essa foi a primeira contração desse subsetor desde julho de 2025 e o pior resultado para um mês de maio desde 2018.

A queda foi associada à menor produção de conservas e sucos, óleos e gorduras, arroz, trigo e, principalmente, refino de açúcar. A maior produção de café ajudou a evitar uma retração ainda mais forte no grupo.

Nos alimentos de origem animal, a produção recuou 1,5%, influenciada pelo menor abate de bovinos, aves e suínos, além de pescados.

O setor de bebidas também operou no negativo, com queda de 2,6%. O recuo foi mais forte em bebidas alcoólicas, que diminuíram 4,2%, enquanto bebidas não alcoólicas tiveram retração de 1,0%.

Não alimentícios têm queda menor

O segmento de Produtos Não Alimentícios caiu 1,8% na comparação interanual.

O resultado foi pressionado por três frentes: Produtos Têxteis, Insumos Agropecuários e Produtos Florestais.

Produtos Têxteis recuaram 5,6% e mantiveram a trajetória de contração interanual iniciada em outubro de 2025. A queda foi disseminada entre fibras, tecelagem, tecidos de malha, artefatos têxteis, vestuário, artigos de malha e calçados. Apenas o curtimento de couro registrou alta no período.

Insumos Agropecuários tiveram queda de 4,5%, no sétimo mês consecutivo de retração interanual. O desempenho foi influenciado pela menor produção de intermediários para fertilizantes, tratores, máquinas, adubos e fertilizantes.

O FGVAgro avalia que a contração não pode ser atribuída exclusivamente à Guerra no Irã, já que o setor já vinha de quedas sucessivas antes do conflito. Ainda assim, o evento pode ter intensificado dificuldades já presentes na cadeia.

Produtos Florestais recuaram 3,5%, na oitava queda interanual consecutiva. A retração foi puxada pela menor produção de celulose e madeira. Segundo o levantamento, o desempenho foi impactado pelo menor volume exportado, especialmente de celulose, cujas exportações caíram 23,1% em maio ante o mesmo mês de 2025, de acordo com dados do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Biocombustíveis seguem no positivo

Em meio à queda quase generalizada, biocombustíveis e fumo foram os únicos setores de Produtos Não Alimentícios com expansão em maio.

Biocombustíveis cresceram 9,6% na comparação com maio de 2025, enquanto fumo avançou 0,8%.

No acumulado do ano, biocombustíveis seguem como destaque positivo, com alta de 24,5%. O desempenho contrasta com a queda de 7,4% em Insumos Agropecuários, de 5,2% em Produtos Têxteis e de 3,3% em Produtos Florestais.

Essa diferença reforça a heterogeneidade dentro da própria agroindústria. Enquanto parte das cadeias ligadas a alimentos, insumos e florestais perdeu força, biocombustíveis continuam sustentando expansão relevante em 2026.

Acumulado mostra perda de fôlego

Apesar da queda de maio, o segmento de Produtos Alimentícios e Bebidas ainda acumula alta de 1,3% no ano. Produtos Alimentícios também avançam 1,3%, enquanto Bebidas crescem 1,2%.

O problema está na velocidade de desaceleração. Até abril, os Produtos Alimentícios e Bebidas acumulavam alta de 2,7%. Em apenas um mês, esse avanço foi reduzido pela metade.

Já os Produtos Não Alimentícios acumulam queda de 1,9% em 2026, mantendo o segmento como foco de fragilidade dentro do PIMAgro.

Na visão de curto prazo, maio interrompeu a leitura de maior resistência da agroindústria. Para empresas, cooperativas e investidores ligados ao setor, o dado exige atenção sobre margens industriais, demanda, exportações, custo de insumos e ritmo de processamento.

A dúvida central é se o resultado reflete uma acomodação pontual ou o início de uma reversão mais consistente. A resposta virá nos próximos meses, mas o dado de maio já indica que a agroindústria entrou no meio do ano com menos impulso do que vinha demonstrando.

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