Pedidos de recuperação judicial no setor chegaram a 1.990 em 2025, mesmo com perspectiva de nova safra recorde de grãos no Brasil
O agronegócio brasileiro caminha para mais uma safra robusta, mas a saúde financeira de parte do setor acendeu um alerta. Em 2025, produtores rurais e empresas do agro protocolaram 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior número desde o início da série histórica da Serasa Experian, em 2021.
O volume representa crescimento de 56,4% em relação aos 1.272 pedidos registrados em 2024 e é quase quatro vezes superior ao observado em 2023, quando foram contabilizadas 534 solicitações.
O avanço das recuperações judiciais expõe uma contradição relevante para o campo: produzir bem deixou de ser suficiente para garantir equilíbrio financeiro. Mesmo com a expectativa de que a safra brasileira de grãos 2025/26 alcance cerca de 360 milhões de toneladas, segundo estimativa da Conab citada no levantamento, muitos produtores enfrentam dificuldade para transformar produtividade em caixa.
A pressão vem da combinação entre custos elevados, juros altos, crédito mais seletivo e volatilidade nos preços das commodities. Na prática, parte do setor segue eficiente na lavoura, mas mais vulnerável na estrutura de capital.
Crédito caro muda dinâmica do setor
Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, a crise atual está mais ligada à estrutura financeira do que à capacidade produtiva do agro.
“O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente. Quando se somam insumos caros, crédito restrito, juros elevados e preços voláteis das commodities, a margem financeira acaba sendo comprimida”, afirma.
A manutenção dos juros em patamar elevado alterou a dinâmica do financiamento rural. Bancos e instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rigorosos para concessão de crédito, exigindo mais garantias e reduzindo a exposição ao risco.
Segundo Barroso, o custo do dinheiro tornou-se um dos principais entraves para o agronegócio. Muitos produtores renegociaram dívidas nos últimos anos apostando em um cenário diferente do que se consolidou. Com crédito mais caro e seletivo, a renovação de capital de giro e o financiamento de novas safras ficaram mais difíceis.
“Quando o crédito desacelera no agronegócio, toda a cadeia produtiva sente os impactos. Cooperativas, distribuidores de insumos, tradings, transportadoras, fabricantes de máquinas e até instituições financeiras regionais acabam sendo afetados pela redução da circulação de recursos”, diz.
Inadimplência pressiona caixa
Os sinais de deterioração aparecem também nos indicadores de inadimplência. De acordo com o boletim mais recente da Serasa Experian citado no levantamento, 8,2% dos produtores rurais apresentavam atrasos superiores a 180 dias em seus compromissos financeiros.
O dado indica que a pressão sobre o caixa permanece elevada mesmo em um ambiente de boa produção agrícola. Para o produtor, o problema não está apenas na capacidade de colher, mas na possibilidade de preservar margem, pagar dívidas, acessar crédito e manter investimentos.
“A competitividade do produtor brasileiro continua elevada sob o ponto de vista produtivo. O problema é que eficiência operacional não garante sustentabilidade financeira quando o custo do capital cresce de forma significativa. Hoje muitos produtores conseguem colher boas safras, mas encontram dificuldades para preservar margem e gerar caixa”, avalia Barroso.
Parte desse cenário decorre do ciclo de expansão do crédito observado nos últimos anos. Decisões de investimento foram tomadas em um ambiente de maior liquidez, mas a elevação dos juros e a maior cautela das instituições financeiras mudaram a capacidade de pagamento de produtores e empresas.
Recuperação judicial avança com endividamento
O aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio não decorre de um único fator. O movimento combina juros elevados, aumento do custo de produção, volatilidade das commodities, redução da liquidez do crédito rural, maior rigor dos bancos e endividamento acumulado após anos de expansão.
Esse conjunto de variáveis fez com que empresas produtivas passassem a enfrentar dificuldade de fluxo de caixa, mesmo mantendo bons resultados operacionais.
Na visão dos especialistas, a recuperação judicial pode ser um instrumento importante de reorganização, mas não deve ser tratada como primeira resposta à crise. O uso tardio ou sem planejamento tende a apenas prolongar dificuldades que poderiam ter sido enfrentadas antes por meio de renegociação estruturada, revisão operacional, venda de ativos ou busca de novos investidores.
“O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel. Em diversos casos ainda existem alternativas, como renegociação estruturada das dívidas, revisão da operação, venda de ativos não estratégicos e busca por novos investidores. Quanto mais cedo essas medidas forem avaliadas, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial”, afirma Barroso.
Reestruturação precisa vir antes da crise
Para Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial e especialista em reestruturação de empresas, o atual cenário exige uma mudança na forma como produtores e empresas administram capital e endividamento.
“O ambiente econômico ficou muito mais exigente. Empresas que antes conseguiam administrar passivos apenas renovando operações de crédito hoje precisam trabalhar com planejamento financeiro permanente, gestão de caixa e avaliação constante da estrutura de capital”, afirma.
Segundo ele, antes de recorrer ao Judiciário, é necessário avaliar alternativas como renegociação com credores, reestruturação operacional, revisão de custos, venda de ativos e entrada de novos investidores.
“A recuperação judicial pode ser necessária em alguns casos, mas deve fazer parte de uma estratégia estruturada e não representar a primeira reação diante das dificuldades”, destaca.
A avaliação reforça uma mudança de prioridade no agro. A gestão financeira passa a exigir o mesmo nível de atenção dedicado à produtividade, à compra de insumos, à comercialização e ao planejamento da safra. Em um ambiente de crédito mais caro, crescer sem preservar liquidez pode ampliar a exposição ao risco.
Pressão deve continuar em 2026
Mesmo com perspectivas positivas para a produção agrícola, especialistas avaliam que o ambiente financeiro continuará exigindo cautela ao longo de 2026. A evolução dos juros, o comportamento das commodities no mercado internacional e a disponibilidade de crédito serão determinantes para a recuperação da capacidade de investimento do setor.
Enquanto essas variáveis permanecerem pressionadas, planejamento financeiro, gestão de riscos e reestruturação preventiva tendem a ganhar peso nas decisões de produtores, cooperativas, agroindústrias e fornecedores ligados ao campo.
“O agronegócio brasileiro continua extremamente competitivo e possui fundamentos sólidos. O desafio, agora, é fortalecer também a estrutura financeira das empresas. Quem conseguir antecipar riscos, reorganizar sua estrutura de capital e manter disciplina na gestão estará mais preparado para atravessar esse período de maior pressão”, conclui Barroso.


















