Etanol de milho entra na disputa entre Brasil e EUA

Pressão de produtores americanos por tarifa contra o etanol brasileiro ocorre em meio à alta do milho e à disputa por biocombustíveis

O etanol de milho passou a ocupar uma posição sensível na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.

A pressão vem de produtores americanos de milho, que pedem ao governo dos Estados Unidos medidas contra o Brasil no âmbito da investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial americana.

Entre as solicitações está a adoção de tarifa de 25% sobre o etanol brasileiro. A medida, porém, ainda está em discussão e não foi aplicada.

O tema ganha relevância porque envolve dois mercados estratégicos: o milho, base da produção de etanol nos Estados Unidos, e os biocombustíveis, setor em expansão no Brasil.

Etanol de milho vira ponto de atrito entre Brasil e EUA

A National Corn Growers Association, entidade que representa produtores de milho dos Estados Unidos, acusa o Brasil de impor barreiras ao etanol americano.

Segundo a associação, a política tarifária brasileira reduziu o acesso do produto dos EUA ao mercado nacional ao longo dos últimos anos.

A entidade também critica o RenovaBio e afirma que o programa brasileiro dificultaria a habilitação de usinas americanas, além de favorecer produtores nacionais.

No depoimento apresentado ao governo americano, a NCGA defendeu a tarifa de 25% sobre o etanol brasileiro e pediu que Washington avalie medidas adicionais, como restrições comerciais, paridade regulatória e compensações por perdas.

UNEM rebate barreira ao etanol brasileiro

Do lado brasileiro, a União Nacional do Etanol de Milho, a UNEM, apresentou defesa técnica na audiência da Seção 301 nos Estados Unidos.

A entidade argumentou que o regime brasileiro de acesso ao mercado de etanol não é discriminatório. Segundo a UNEM, a tarifa de 18% sobre o etanol importado segue compromissos internacionais e é aplicada igualmente a países sem acordo preferencial com o Brasil.

A associação também rebateu a tese de fechamento do mercado brasileiro ao afirmar que, no primeiro semestre de 2026, o Brasil importou praticamente o dobro de etanol comprado em todo o ano de 2025.

Na avaliação da UNEM, a expansão do etanol de milho no Brasil está ligada a fatores produtivos, como a segunda safra, o avanço industrial e a complementaridade com o etanol de cana, não apenas à política tarifária.

O posicionamento busca sustentar que novas tarifas dos Estados Unidos ao etanol brasileiro ampliariam a tensão comercial entre os dois maiores produtores globais do biocombustível, em vez de fortalecer uma agenda de cooperação em combustíveis renováveis.

Disputa vai além da tarifa

A tensão não está limitada ao fluxo comercial de etanol.

O debate envolve competitividade, transição energética, regras ambientais e a expansão do etanol de milho no Brasil.

Nos últimos anos, o país ampliou a produção do biocombustível a partir do cereal, especialmente no Centro-Oeste. Esse avanço reduziu a dependência do etanol importado em períodos de entressafra da cana e tornou o Brasil mais competitivo em um segmento historicamente dominado pelos Estados Unidos.

Por isso, o etanol de milho aparece como um capítulo à parte nas negociações. Ele conecta a pauta comercial ao mercado de grãos, à política de combustíveis e à disputa por protagonismo em energia renovável.

Milho também reage no mercado físico

A discussão ocorre em um momento de valorização do milho no Brasil.

Segundo análise, o mercado brasileiro encerrou a semana com preços em alta, sustentado por três fatores: clima nos Estados Unidos, atraso na colheita da segunda safra brasileira e retração dos produtores nas vendas.

A saca de milho foi negociada, em média, a R$ 60,87 em 9 de julho, alta de 1,22% em relação à semana anterior.

O destaque foi Mato Grosso, onde a menor oferta imediata no mercado físico contribuiu para a valorização. Em Rondonópolis, a saca chegou a R$ 56, alta de 5,66%.

Clima nos EUA aumenta volatilidade

No mercado internacional, o clima no cinturão produtor dos Estados Unidos segue no radar.

Previsões de calor intenso e chuvas abaixo da média em parte do Meio-Oeste americano aumentaram a volatilidade na Bolsa de Chicago.

O USDA também revisou estimativas de área plantada. Para o milho, a projeção ficou em 95,343 milhões de acres, acima da média esperada por analistas. Na soja, a área foi estimada em 85,365 milhões de acres, número praticamente alinhado às expectativas do mercado.

Esses dados reforçam a sensibilidade do mercado global a clima, área plantada e demanda por grãos.

Exportações brasileiras começam mais lentas em julho 

No Brasil, os embarques de milho começaram julho abaixo do desempenho do mesmo período do ano anterior.

Nos três primeiros dias úteis do mês, o país exportou 120,3 mil toneladas, com receita de US$ 30,6 milhões.

Na média diária, o volume embarcado recuou 62,1% em relação a julho de 2025. A receita média diária caiu 53%, enquanto o preço médio da tonelada exportada subiu 24%.

A expectativa é que o avanço da colheita da segunda safra amplie a disponibilidade do cereal nas próximas semanas, período em que os embarques brasileiros tradicionalmente ganham força.

Biocombustíveis ampliam peso estratégico do milho

A disputa comercial mostra que o milho deixou de ser analisado apenas como commodity agrícola. O cereal passou a ter peso crescente em cadeias de energia, proteína animal e comércio internacional.

Para o Brasil, o avanço do etanol de milho fortalece a industrialização do grão e amplia a integração entre agricultura e bioenergia. Para os Estados Unidos, o tema envolve acesso a mercado, renda de produtores e competitividade de sua indústria de biocombustíveis. Para a UNEM, a disputa não deveria se concentrar em novas barreiras entre os dois maiores produtores globais de etanol, mas em cooperação para ampliar o mercado internacional de combustíveis renováveis.

A investigação americana ainda não tem desfecho definitivo. Até lá, o setor brasileiro acompanha a volatilidade do milho no curto prazo e a tentativa de evitar que o etanol nacional se torne alvo de uma nova barreira comercial nos Estados Unidos.

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