Compras chinesas da nova safra americana podem alterar prêmios nos portos brasileiros e pressionar preços internos da oleaginosa
A disputa entre Brasil e Estados Unidos pela exportação de soja para a China ganhou um novo capítulo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, informou a venda de 132 mil toneladas da safra 2026/27 para compradores chineses.
O anúncio ocorre pouco mais de um mês após a reunião entre os presidentes Xi Jinping e Donald Trump. A China é o principal destino da soja brasileira, mas as primeiras compras da nova safra americana recolocam os EUA na disputa pelo abastecimento do mercado asiático.
Além da venda confirmada à China, o USDA também informou a negociação de outras 384 mil toneladas para destinos não revelados. Analistas avaliam que parte desse volume também pode ter como destino o mercado chinês.
Exportação de soja para a China fica mais disputada
A retomada das compras nos Estados Unidos ocorre em um momento em que o Brasil ainda mantém forte presença no comércio com a China.
Segundo estimativas da Royal Rural, o Brasil deve exportar 15 milhões de toneladas de soja em junho. Desse total, 10,7 milhões de toneladas devem seguir para a China.
Para julho, já há programação de embarques de 4 milhões de toneladas, com metade destinada ao mercado chinês.
Apesar disso, dados de movimentação marítima da Datamar indicam que as exportações brasileiras de soja para a China caíram quase 7% entre janeiro e abril, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
China usa compras para negociar preços
A compra de soja americana também pode ter efeito sobre a formação de preços no Brasil.
Analistas avaliam que a China tende a usar a negociação com os Estados Unidos como instrumento para pressionar os prêmios brasileiros. O movimento ocorre porque a demanda pela oleaginosa americana pode elevar os preços em Chicago e, ao mesmo tempo, reduzir os prêmios de exportação nos portos do Brasil.
Na prática, esse ajuste pode pressionar os valores pagos no mercado interno brasileiro.
Mesmo assim, a demanda ainda aquecida sustenta os preços no curto prazo. O indicador Cepea/Esalq recuou 0,02%, para R$ 132,81 a saca, enquanto os contratos de julho da soja em Chicago caíram 0,62%, para US$ 11,1575 por bushel.
EUA tentam ampliar embarques
As vendas americanas de soja à China até junho devem se aproximar de 12 milhões de toneladas.
O governo dos Estados Unidos espera ampliar esse volume na safra 2026/27. Há expectativa de que os embarques possam chegar a 25 milhões de toneladas, caso as condições comerciais sejam favoráveis à China.
No entanto, parte do mercado avalia que os chineses ainda podem aguardar sinais sobre a área plantada nos Estados Unidos. Uma expansão da produção americana poderia elevar a oferta, aumentar estoques e abrir espaço para preços mais baixos.
Brasil segue forte, mas com mais concorrência
Historicamente, as exportações brasileiras desaceleram a partir de julho. Ainda assim, o volume deve ficar acima da média dos últimos cinco anos para o mês, estimada em 9,8 milhões de toneladas pela Royal Rural.
O Brasil continua competitivo pela escala da safra, pela proximidade logística com o calendário chinês e pela relação comercial consolidada com o principal comprador global de soja.
A diferença, agora, está no avanço da concorrência americana em um momento sensível para preços, prêmios e decisões de comercialização.
Para o produtor brasileiro, o ponto de atenção está menos na perda imediata de mercado e mais no impacto das compras chinesas sobre os preços internos. Se a China ampliar a demanda pelos EUA, os prêmios nos portos brasileiros podem perder força.
Nesse cenário, a exportação de soja para a China segue como eixo central da disputa entre as duas maiores origens globais da oleaginosa.


















