Produção de fosfatados está em risco, enquanto importações caem e preços seguem elevados nos portos
A indústria brasileira de fertilizantes acompanha com preocupação a escassez global de enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes fosfatados.
O problema vinha sendo observado antes do agravamento das tensões no Oriente Médio, mas ganhou peso com a instabilidade em rotas estratégicas para energia e fertilizantes.
Em posicionamento oficial, o Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes, o Sinprifert, afirmou que o cenário internacional deixou de ser apenas uma variável de custo e passou a representar risco estrutural para a produção e o fornecimento de insumos críticos ao agro brasileiro.
O alerta é relevante porque os fosfatados estão entre os principais grupos de fertilizantes usados na formação da safra.
Enxofre nos fertilizantes pressiona a indústria
O enxofre é usado na fabricação de ácido sulfúrico, insumo necessário para a produção de fertilizantes fosfatados.
Segundo o Sinprifert, o Brasil cobriu por meio de importações 92% de sua necessidade de enxofre em 2025. No mesmo ano, também importou 97% do nitrogênio, 74% do fosfato e 97% do potássio demandados internamente.
Essa dependência amplia a exposição do país a choques internacionais de oferta, custos logísticos e disputa por matérias-primas.
Ainda de acordo com o sindicato, sem enxofre competitivo, a produção nacional de fertilizantes fosfatados perde viabilidade.
Importações menores reforçam alerta
Os dados de comércio exterior reforçam a preocupação do setor.
As importações brasileiras de enxofre somaram cerca de 630 mil toneladas entre janeiro e maio. O volume representa queda de 45,7% frente ao mesmo período do ano passado.
As cotações nos portos brasileiros estão acima de US$ 1.200 por tonelada, alta de quase 140% em relação aos patamares observados no início da guerra no Oriente Médio, segundo a consultoria.
A redução do volume importado pode ser explicada pela oferta menor, pela disputa por cargas disponíveis e pelo preço elevado do insumo.
Fertilizantes têm comportamento desigual
A trégua nas tensões do Oriente Médio trouxe algum alívio para parte do mercado de fertilizantes. No caso da ureia, os preços de referência no Oriente Médio recuaram cerca de 50%, de US$ 918 para US$ 475 por tonelada, segundo levantamento da Argus.
No entanto, o ajuste não elimina o ponto de atenção nos fosfatados. Esse segmento segue mais exposto à disponibilidade e ao custo do enxofre.
O cenário mostra que o mercado de fertilizantes não reage de forma uniforme. Enquanto alguns produtos recuam com a normalização logística, outros permanecem pressionados por gargalos específicos de matéria-prima.
Setor pede resposta coordenada
Diante desse quadro, o Sinprifert defende uma resposta coordenada entre setor privado e poder público.
No curto prazo, o sindicato cita medidas como calibragem do piso mínimo de frete, reavaliação temporária dos efeitos da LC nº 224/2025 sobre cadeias essenciais, aprovação do PROFERT, preservação da isonomia tributária entre produção nacional e importação e redução do preço do gás natural usado como matéria-prima.
A entidade também sustenta que fertilizantes devem ser tratados como infraestrutura crítica para a soberania produtiva do país.
Próxima safra entra no radar
Para o produtor rural, o principal ponto de atenção está no custo dos insumos e na disponibilidade de fertilizantes no momento de planejamento da safra.
O Brasil depende de importações para atender parte expressiva da demanda por fertilizantes. Por isso, choques externos em matérias-primas como enxofre, gás natural e amônia tendem a afetar o custo de produção no campo.
No curto prazo, a redução das tensões no Oriente Médio pode trazer algum ajuste aos preços. Ainda assim, a recomposição da oferta tende a ser gradual, especialmente nos produtos ligados ao enxofre.
Com importações menores, preços elevados e forte dependência externa, a cadeia de fertilizantes chega ao segundo semestre sob atenção. O comportamento do enxofre pode influenciar tanto a produção nacional de fosfatados quanto o planejamento da próxima safra brasileira.


















