Banco projeta alta de 10% na carteira agro em 2026, mas condiciona avanço à gestão financeira e ao controle de risco dos clientes
O Itaú BBA projeta ampliar em 10% sua carteira de crédito para o agronegócio em 2026, mas com maior seletividade na concessão de recursos.
A carteira agro do banco soma cerca de R$ 135 bilhões. Caso a projeção se confirme, poderá chegar a R$ 148 bilhões neste ano, desconsiderando efeitos cambiais.
A estratégia foi apresentada durante o seminário “Agro em Pauta”, promovido pela instituição financeira. O movimento ocorre em um cenário de juros elevados, margens pressionadas e maior atenção à capacidade de pagamento de produtores e empresas do setor.
Crédito seletivo no agro orienta decisão
A seletividade passou a ditar o ritmo de concessão de crédito do banco para a safra 2026/27.
O banco deve apoiar clientes que demonstram gestão financeira mais estruturada e decisões compatíveis com o momento atual.
Na avaliação do banco, este não é o momento para “decisões de ímpeto” ou movimentos que elevem o risco de insolvência.
Gestão pesa mais que cultura financiada
A análise do banco não será definida apenas pela cultura produzida, mas pela forma como o negócio é conduzido.
A seletividade passa pela capacidade do produtor de entender custos, dívidas, vencimentos, indexadores e política de comercialização.
Existem diferenças relevantes de preço entre produtores que venderam soja na mesma praça, indicando que a gestão de risco pode alterar diretamente o resultado financeiro.
Na prática, o banco tende a priorizar produtores e empresas com maior previsibilidade de caixa, controle de exposição e disciplina comercial.
El Niño aumenta atenção ao risco
Para a nova safra, o clima aparece como o principal fator de risco no radar do Itaú BBA.
O banco trabalha com um cenário de El Niño capaz de trazer prejuízos ao Matopiba, com chuvas abaixo da média, eventual irregularidade no Cerrado e possibilidade de chuvas acima da média no Sul.
Um El Niño intenso poderia afetar regiões produtoras importantes e tornar mais sensível o equilíbrio global entre oferta e demanda de grãos.
A seletividade, nesse contexto, não significa evitar regiões expostas ao clima. O ponto central é não financiar aumento de risco por produtores já alavancados.
Bioenergia e insumos devem puxar expansão
Apesar do ambiente mais rigoroso, o Itaú BBA vê espaço para crescimento em cadeias que seguem demandando capital.
Entre os focos estão o etanol de milho, o biodiesel, o esmagamento de soja e o financiamento da cadeia de insumos.
No setor sucroenergético, o banco mantém cerca de R$ 25 bilhões em exposição. A instituição avalia que muitas usinas entraram no ciclo atual mais desalavancadas, após anos de geração de caixa e alongamento de dívidas no mercado de capitais.
Para a safra 2026/27, o Itaú BBA projeta moagem de 644 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, alta de 6%. A produção de etanol na região deve chegar a 38,4 bilhões de litros, sendo pouco mais de 10 bilhões de litros vindos do milho.
Crédito acompanha novo perfil do agro
As projeções do banco indicam uma safra de maior cautela para grãos.
Na soja, o Itaú BBA estima crescimento de apenas 0,5% na área plantada e produção de 182,4 milhões de toneladas, alta de 1,3% sobre o ciclo anterior.
No milho, a demanda doméstica para ração e etanol sustenta expectativa de preços mais firmes. Porém, a segunda safra segue mais exposta ao risco climático, especialmente se atrasos na colheita da soja comprometerem a janela de plantio.
A leitura do banco mostra que o crédito agro seguirá disponível, mas com critérios mais rígidos.
Para produtores e empresas, acesso a capital dependerá cada vez mais de gestão, planejamento, nível de endividamento e capacidade de atravessar um ciclo de margens mais apertadas.
Para o Itaú BBA, o crescimento da carteira virá de uma escolha mais direcionada: financiar cadeias com demanda estrutural e clientes com maior controle sobre risco.


















