Conab estima 705,2 milhões de toneladas de cana, com alta de 4,7%, redução no açúcar e avanço da produção de etanol na temporada
A safra brasileira de cana-de-açúcar 2026/27 deve alcançar 705,2 milhões de toneladas, segundo o segundo levantamento divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. O volume representa crescimento de 4,7% em relação ao ciclo 2025/26 e coloca a temporada como uma das maiores da série histórica da companhia.
A alta é sustentada por dois movimentos combinados: aumento de 1,1% na área destinada à colheita, estimada em 9,05 milhões de hectares, e avanço de 3,6% na produtividade média, projetada em 77.905 quilos por hectare. As condições climáticas registradas desde o início do ciclo favoreceram o desenvolvimento dos canaviais em importantes regiões produtoras.
O resultado reforça a força da matéria-prima no campo, mas a leitura industrial mostra uma mudança relevante no direcionamento da safra. Mesmo com maior produção de cana, a Conab estima redução de 2,9% na produção de açúcar, para 42,89 milhões de toneladas, enquanto a produção total de etanol, somando cana e milho, deve crescer 11,7% e chegar a 41,88 bilhões de litros.
Etanol ganha espaço no mix
A maior disponibilidade de cana deve dar suporte ao avanço dos biocombustíveis. Segundo a Conab, a produção de etanol de cana-de-açúcar está estimada em 29,98 bilhões de litros, alta de 9,7% frente à safra anterior. Desse total, 10,38 bilhões de litros devem ser de etanol anidro, usado na mistura com a gasolina, e 19,6 bilhões de litros de hidratado.
O etanol de milho também mantém trajetória de crescimento. A projeção é de 11,91 bilhões de litros, avanço de 17% na safra, com novo recorde para o biocombustível derivado do cereal. A produção de anidro de milho deve crescer 22,4%, enquanto a de hidratado avança 13,6%.
A mudança no mix reflete o ambiente de mercado. A Conab aponta que a redução das cotações internacionais do açúcar levou parte das unidades a reavaliar a produção do adoçante, limitando volumes ao cumprimento de contratos e direcionando mais cana para etanol. Além da flexibilidade industrial, a liquidez do biocombustível permite geração mais rápida de caixa durante a safra.
São Paulo segue como centro da moagem
O Sudeste continua concentrando a maior parte da produção nacional de cana. A região deve colher 451,4 milhões de toneladas, alta de 5% sobre a safra anterior. São Paulo permanece como principal estado produtor, com previsão de 362,8 milhões de toneladas.
No estado paulista, os canaviais apresentam bom desenvolvimento e possibilidade de boa produtividade. As chuvas acima da média em maio e junho, porém, prejudicaram o corte e comprometeram o cronograma de colheita. Em muitas unidades, a moagem deve se estender até meados de dezembro.
As precipitações também reduziram a concentração de Açúcares Totais Recuperáveis, o ATR, na comparação com o mesmo período do ciclo anterior. Segundo a Conab, as chuvas prolongaram o crescimento vegetativo e retardaram a maturação, levando usinas a intensificarem o uso de maturadores para ajustar a qualidade da matéria-prima ao calendário industrial.
Centro-Oeste amplia produção
A segunda maior região produtora, o Centro-Oeste, deve alcançar 157 milhões de toneladas de cana, crescimento de 4,6%. A área colhida está estimada em 2 milhões de hectares, com alta de 2%, enquanto a produtividade média deve avançar 2,5%, para 78.755 quilos por hectare.
O comportamento regional é heterogêneo. Em Goiás, a produção deve ficar ligeiramente abaixo da safra anterior, apesar da boa distribuição das chuvas, por causa da pequena redução da área e de limitações ligadas à renovação dos canaviais. Já Mato Grosso do Sul deve registrar crescimento expressivo, apoiado na recuperação hídrica de áreas afetadas pela estiagem na safra passada e na presença de cana remanescente do ciclo anterior.
Em Mato Grosso, o desempenho no campo é favorável, com expectativa de aumento de área, produtividade e produção. O relatório também aponta avanço no uso de insumos biológicos em parte dos manejos e investimentos industriais, especialmente em tancagem, diante da expectativa de crescimento da demanda por etanol.
Açúcar perde força na estimativa
Apesar da recuperação recente dos preços internacionais do açúcar em agosto, a estimativa da Conab ainda indica produção menor do adoçante na safra 2026/27. O volume nacional deve cair de 44,18 milhões para 42,89 milhões de toneladas.
A redução é mais intensa no Centro-Oeste, onde a produção estimada de açúcar deve recuar 9,4%, para 5,3 milhões de toneladas. No Sudeste, que responde por mais de 70% da produção nacional, a queda prevista é de 1,5%, com São Paulo ainda responsável por mais da metade do açúcar produzido no país.
O movimento mostra que as usinas seguem ajustando o mix em função de preços, contratos, demanda por combustíveis renováveis e necessidade de caixa. Para o setor, a decisão entre açúcar e etanol continua sendo uma das variáveis mais estratégicas da safra.
Mercado doméstico sustenta biocombustível
A demanda interna por etanol ganhou peso adicional com a elevação do percentual obrigatório de mistura do biocombustível à gasolina, que passou de 30% para 32% no fim de julho. Segundo a Conab, a mudança pode ampliar a demanda por etanol anidro e reforçar os incentivos para direcionar mais matéria-prima à produção do biocombustível.
No comércio exterior, os dados também indicam maior absorção interna. Entre abril e julho da safra 2026/27, o Brasil exportou 350,1 milhões de litros de etanol, queda de 20,9% em relação ao mesmo período da temporada anterior. As importações somaram 22,3 milhões de litros, retração de 79,2%.
No açúcar, as exportações brasileiras chegaram a 9,3 milhões de toneladas entre abril e julho, volume 13,1% inferior ao registrado no mesmo intervalo da safra passada. A redução ocorre em um contexto de menor disponibilidade do produto para comercialização externa, associado ao maior direcionamento da cana para etanol.
Safra exige gestão de mix e clima
A projeção de 705,2 milhões de toneladas confirma uma safra forte no campo, mas o resultado econômico dependerá da execução industrial e comercial. Chuvas prolongadas, atraso na maturação, queda do ATR em alguns estados e volatilidade nos preços internacionais tornam a gestão do mix mais relevante para usinas e fornecedores.
Para o setor sucroenergético, a safra 2026/27 combina três movimentos: mais cana disponível, menor produção de açúcar e expansão do etanol. O cenário reforça a importância da flexibilidade industrial em um mercado no qual decisões sobre moagem, contratos, biocombustíveis, exportação e caixa precisam ser ajustadas ao longo da temporada.
Com produtividade em alta e maior demanda por combustíveis renováveis, o etanol ganha protagonismo na estratégia das usinas. A cana cresce no campo, mas a rentabilidade da safra será definida dentro da indústria, na capacidade de direcionar a matéria-prima para o produto com melhor retorno em cada momento do mercado.


















