À frente da Girassol Agrícola, Gilmar Meneghini defende governança, eficiência operacional, tecnologia e proximidade com o produtor para atravessar um ciclo mais desafiador
O agronegócio brasileiro atravessa um momento que exige mais do que capacidade produtiva. Em um cenário de margens pressionadas, crédito seletivo, juros elevados e maior complexidade de mercado, a liderança passa a ocupar papel central na continuidade e no crescimento das empresas do setor.
O contexto reforça a preocupação. A Selic foi reduzida para 14,25% ao ano em junho, mas segue em patamar elevado para decisões de custeio, investimento e estrutura financeira no campo. Ao mesmo tempo, a projeção para o Plano Safra 2026/27, do Ministério da Agricultura e Pecuária, aponta recursos entre R$ 568 bilhões e R$ 570 bilhões, com expectativa de juros menores para o ciclo. Esse cenário combina custo financeiro ainda elevado com maior seletividade no crédito, exigindo das empresas do agro mais rigor na gestão, planejamento financeiro estruturado e decisões cada vez mais precisas para sustentar margens e garantir continuidade operacional.
Para Gilmar Meneghini, CEO da Girassol Agrícola, esse ciclo exige presença, protagonismo e capacidade de decisão em todos os níveis da organização. À frente da companhia desde novembro de 2024, o executivo defende que liderar no agro, hoje, significa conectar eficiência operacional, estrutura financeira, tecnologia e relacionamento com o mercado.
“O papel da liderança se torna ainda mais estratégico. É um papel de presença, de movimento e de protagonismo junto às equipes, olhando todos os níveis da organização”, afirma Meneghini.
Com mais de 28 anos de experiência em gestão, operações e finanças, o executivo reúne trajetória em transformação de negócios, governança, eficiência operacional e desenvolvimento de equipes. Na Girassol, lidera a empresa com atuação em soja, milho, algodão, sementes e eucalipto, sediada em Rondonópolis (MT).
Liderança no agro passa por disciplina e adaptação
Na avaliação de Meneghini, o agro vive um ciclo desafiador, especialmente pela permanência dos juros em dois dígitos. Esse cenário eleva o custo do dinheiro e aumenta a pressão sobre as margens das commodities.
Por isso, a liderança precisa compreender o negócio como parte de um ecossistema. Isso envolve diversificação, qualidade do time, estrutura financeira e capacidade de adaptação.
“Mais do que nunca, é fundamental contar com um time competente, alinhado e próximo da liderança, para que todos possam enfrentar juntos os desafios do agro com consistência, disciplina e capacidade de adaptação”, destaca.
A visão reforça uma mudança relevante no setor. A gestão deixou de ser apenas uma competência administrativa e passou a ser um diferencial competitivo. Em ciclos mais restritivos, empresas com processos claros, informações confiáveis e liderança próxima tendem a tomar decisões com mais segurança.
Sementes ganham peso estratégico na safra
Dentro da porteira, a busca por produtividade começa antes mesmo do plantio. Para Meneghini, a escolha da semente deixou de ser uma etapa operacional e passou a ser uma decisão estratégica para o produtor.
“Tudo começa com a semente. Uma semente de qualidade, que entrega o máximo da sua genética e da sua performance, é determinante para o produtor ter uma safra com melhores resultados”, afirma.
Em um ambiente de margens apertadas, errar na escolha da genética, da cultivar ou do posicionamento pode comprometer o resultado da safra. Assim, a semente passa a ser analisada como ferramenta de redução de risco, ganho de eficiência e proteção de rentabilidade.
Segundo o CEO, a Girassol Agrícola atua com produção de sementes em fazendas próprias, laboratório validado pelo Ministério da Agricultura e uma equipe técnica que acompanha o processo produtivo.
A empresa também investiu na modernização das Unidades de Beneficiamento de Sementes, com equipamentos importados da Alemanha. O objetivo, segundo Meneghini, é ampliar precisão, qualidade e eficiência no beneficiamento.
Outro movimento citado pelo executivo é o lançamento do Bag ATI, embalagem com atmosfera controlada desenvolvida para preservar a qualidade da semente durante transporte e armazenamento até o plantio.
“Em um momento em que as margens estão mais pressionadas e o produtor precisa tomar decisões cada vez mais assertivas, escolher bem a semente, a genética e o posicionamento da cultivar é fundamental”, afirma.
Gestão da porteira para dentro mira eficiência
A gestão “da porteira para dentro” exige atenção aos fatores que podem ser controlados pela operação. Para Meneghini, produtividade, custos, perdas, manejo, máquinas, equipe e execução precisam ser acompanhados de perto pela liderança.
O clima segue como variável fora do controle do produtor. No entanto, aquilo que depende da operação precisa ser realizado com precisão.

“Hoje existem muitas ferramentas que ajudam nesse processo. O uso de drones, por exemplo, permite uma análise muito mais assertiva dos talhões”, explica.
Na prática, tecnologia e dados ampliam a capacidade de leitura da fazenda. Mapas de produtividade, imagens, análises de solo e acompanhamento técnico ajudam a ajustar manejo, recomendar sementes e monitorar o desempenho das áreas.
Para o executivo, a agricultura de precisão mudou a forma de decidir. A experiência do produtor continua relevante, mas passa a ser combinada com informações mais detalhadas sobre solo, histórico produtivo, fertilidade, altitude, regime de chuvas, pressão de pragas e doenças.
“A mesma fazenda pode ter áreas com potenciais diferentes, e cada ambiente exige uma estratégia”, observa.
O recorte regional também fortalece a discussão. Mato Grosso segue como principal polo agrícola do país e deve registrar produção recorde de soja na safra 2025/26, estimada pelo Imea em 51,56 milhões de toneladas, com produtividade média de 66,03 sacas por hectare. Nesse ambiente, a escolha correta de cultivares, o posicionamento técnico e o uso de dados se tornam fatores decisivos para proteger margens e elevar eficiência.
Nesse contexto, o dado só gera valor quando se transforma em decisão. A integração entre operação, equipe técnica, gestão e liderança é essencial para reduzir perdas e buscar maior eficiência no campo.
Governança fortalece a gestão fora da porteira
Se a eficiência operacional sustenta o resultado dentro da fazenda, a gestão “da porteira para fora” define a capacidade de relacionamento, posicionamento e acesso a capital.
Para Meneghini, empresas do agro precisam acelerar sua evolução em governança. Isso inclui processos definidos, auditoria, estrutura de capital, controle de endividamento, gestão de caixa e informações confiáveis.
“Tão importante quanto produzir bem é ter uma empresa bem estruturada, com governança forte, informações confiáveis e capacidade de acessar capital com segurança”, afirma.
Em um mercado de crédito mais seletivo, a profissionalização da gestão se torna decisiva. Bancos, investidores, fornecedores e parceiros observam garantias, mas também analisam geração de caixa, controles internos, histórico, governança e qualidade das informações.
Na avaliação do CEO, áreas como custos, controladoria, contabilidade, crédito, caixa e supply são fundamentais para sustentar decisões estratégicas.
“A profissionalização da gestão é um divisor de águas para o crescimento das empresas do agro”, diz.
Para ele, governança não reduz velocidade. Ao contrário, quando bem executada, oferece segurança para acelerar, reduzir riscos e preparar a empresa para oportunidades de médio e longo prazo.
Mercado de sementes avança para solução
O mercado de sementes também acompanha essa evolução. Segundo Meneghini, o setor deixa de ser apenas um mercado de produto e passa a ser um mercado de solução.
Genética, tratamento industrial, rastreabilidade, qualidade fisiológica, tecnologia aplicada e assistência técnica passam a compor uma entrega mais ampla ao produtor.
“Hoje, o produtor não quer apenas comprar semente. Ele quer segurança, performance, suporte técnico e previsibilidade”, afirma.
Essa mudança redefine a relação entre empresas de sementes e produtores. A proximidade técnica, o conhecimento sobre a realidade de cada cliente e o acompanhamento no campo ganham relevância.
Para a Girassol Agrícola, esse movimento reforça a importância de entregar qualidade, tecnologia e relacionamento de longo prazo. A semente, nesse contexto, se conecta diretamente à estratégia produtiva do agricultor.
Nos próximos anos, Meneghini acredita que ganharão espaço as empresas capazes de unir produto, dados, assistência técnica e compromisso com o resultado do produtor.
Agro exige integração entre campo, mercado e capital
Mesmo diante de um ciclo mais difícil, Meneghini vê o agronegócio brasileiro como um setor estratégico, competitivo e cheio de oportunidades.
O desafio está em avançar para uma nova postura de gestão. Isso significa produzir com mais eficiência, mais inteligência e mais sustentabilidade econômica.
“O agro brasileiro já mostrou que sabe produzir. Agora, o grande desafio é produzir com mais eficiência, mais inteligência e mais sustentabilidade econômica”, afirma.
A leitura sintetiza uma agenda que ultrapassa a porteira. O futuro do agro dependerá da capacidade de integrar campo, mercado, capital, tecnologia e pessoas.
Nesse ambiente, a liderança não se resume a condução de equipes. É necessário construir sistemas de gestão capazes de atravessar ciclos, proteger margens, organizar informações e tomar decisões mais precisas.
Para empresas como a Girassol Agrícola, esse caminho passa pela combinação entre tradição no campo, qualidade em sementes, governança, inovação e proximidade com o produtor.
Em um setor cada vez mais requisitado e exigente, a competitividade será definida por quem souber conectar produtividade dentro da fazenda com posicionamento fora dela.


















