Restrição inédita determinada pelo ONS preocupa setor sucroenergético por risco de impacto na moagem, na cogeração e na produção industrial
O corte de geração de energia em usinas de biomassa de cana-de-açúcar acende alerta no setor sucroenergético.
A restrição foi determinada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS. A medida atingiu usinas classificadas como tipo 3, grupo que inclui plantas de cogeração conectadas à rede de distribuição.
Foi a primeira vez que o ONS acionou esse plano de restrição para esse tipo de usina. Até então, os cortes eram mais associados a fontes eólicas e solares sob controle direto do operador.
A decisão teve impacto limitado sobre a produção de açúcar e etanol. Ainda assim, gerou preocupação entre empresas do setor.
Corte de geração de energia afeta cogeração
O ONS solicitou a 12 distribuidoras a redução de 1 gigawatt de geração entre 10h e 14h. Coube a cada distribuidora alocar o corte entre as usinas associadas e avisar as empresas.
A medida, conhecida no setor como curtailment, ocorre quando há necessidade de reduzir a geração para preservar a estabilidade do sistema elétrico.
O cenário foi influenciado pela combinação entre baixa demanda de energia e maior produção renovável durante o dia.
Nos últimos anos, esse tipo de restrição se tornou mais frequente para as fontes eólica e solar. Agora, o avanço sobre usinas de biomassa trouxe uma nova preocupação para o setor sucroenergético.
Usinas temem impacto na moagem da cana
Nas usinas de cana, a geração de energia está ligada ao uso do bagaço como biomassa. Esse processo também se conecta ao vapor necessário para a operação industrial.
Por isso, o corte na geração não é simples como desligar parte da produção elétrica.
Empresas do setor alertam que restrições frequentes podem afetar a moagem da cana, a produção de açúcar e etanol e o equilíbrio operacional das unidades.
Além da perda de receita com a energia não comercializada, as usinas apontam risco de aumento de custos e descumprimento de contratos.
A preocupação central é que um corte pontual possa ser absorvido. Porém, a repetição das medidas tende a ampliar a instabilidade na operação.
Setor cobra regras para o curtailment
O episódio também aumentou a pressão por soluções regulatórias.
A Aneel discute critérios para redução ou limitação da geração de energia no Sistema Interligado Nacional. O objetivo é ordenar as manobras de corte quando houver excesso de oferta ou limitações na rede.
A agência reconhece que o tema envolve um dos debates mais sensíveis do setor elétrico, especialmente com a expansão das fontes renováveis e da geração distribuída.
Para as usinas, a definição de regras é essencial para dar previsibilidade às operações.
O setor também cobra critérios mais transparentes e mecanismos de compensação para empreendimentos atingidos pelos cortes.
Excesso de energia durante o dia muda operação
O corte determinado pelo ONS reflete uma mudança estrutural no sistema elétrico brasileiro.
A geração solar distribuída cresce rapidamente e ajuda a atender parte da demanda durante o dia. Ao mesmo tempo, o consumo pode cair em determinados períodos, especialmente em fins de semana.
Esse descasamento cria momentos de sobra de energia na rede. Nesses casos, o operador precisa reduzir a geração para evitar riscos ao sistema.
No entanto, a aplicação do corte em usinas de biomassa amplia o debate sobre as diferenças entre as fontes.
Enquanto a solar e a eólica podem ter restrições mais diretas, a cogeração com bagaço de cana está integrada ao processo industrial.
Bioenergia pede previsibilidade regulatória
A biomassa de cana ocupa papel relevante na matriz elétrica renovável do país.
Além de gerar energia, ela está vinculada a uma cadeia produtiva que envolve açúcar, etanol, bioeletricidade e aproveitamento de resíduos industriais.
Por isso, o setor defende que a operação elétrica considere as particularidades da cogeração.
O desafio regulatório será conciliar segurança do sistema elétrico com continuidade da produção industrial.
No curto prazo, uma solução definitiva ainda parece difícil, já que o tema envolve ONS, Aneel, distribuidoras, geradores e regras de compensação.
Mesmo assim, o episódio de junho deixou claro que o curtailment deixou de ser uma pauta restrita às fontes eólica e solar.
Para as usinas de cana, a previsibilidade sobre cortes de geração passa a ser parte da agenda de competitividade, planejamento industrial e segurança operacional.


















