Mesmo líder global em produção e exportação, o Brasil ainda captura menos de 3% da riqueza do setor e enfrenta desafios em agregação de valor, logística e ambiente regulatório para ampliar sua competitividade.
Com quase três séculos de história no Brasil, o café segue como um dos pilares mais estratégicos do agronegócio nacional, e, ao mesmo tempo, um setor que ainda enfrenta desafios estruturais para capturar todo o valor que gera globalmente. Essa é a análise de Marcos Antonio Matos, CEO do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), que aponta para um cenário de liderança consolidada na produção, mas com espaço relevante para avanços em agregação de valor, infraestrutura e ambiente regulatório.
“O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo, além de ser o segundo maior consumidor global, atrás apenas dos Estados Unidos. Estamos prestes a completar 300 anos dessa cultura no país, com uma trajetória consistente de liderança”, afirma. Segundo ele, ao considerar exportações e consumo interno, indicadores mais estáveis que a própria produção, sujeita a bienalidade, o Brasil representa cerca de 40% do mercado global de café.
Apesar dessa dominância, a participação brasileira na riqueza gerada pelo setor ainda é limitada. “Quando analisamos o PIB global do café, que gira em torno de 1 trilhão de dólares, o Brasil responde por menos de 3% desse total. Ou seja, somos 40% da produção, mas capturamos uma fração muito pequena do valor. Isso exige uma reflexão urgente sobre como avançar em agregação de valor e melhorar a remuneração do produtor”, destaca.
Dentro das porteiras, no entanto, o desempenho é exemplar. Nas últimas quatro décadas, o país aumentou sua produtividade em 400% e reduziu a área plantada em 55%, abrindo espaço para preservação ambiental e diversificação agrícola. A base produtiva é majoritariamente formada por pequenos produtores: cerca de 78% dos 300 mil cafeicultores têm acesso ao Pronaf, e 72% possuem propriedades com menos de 20 hectares. “São pequenos produtores organizados em cooperativas bem estruturadas, com apoio técnico e acesso a mercados globais, alcançando cerca de 150 países”, explica.
Essa capilaridade produtiva sustenta a presença do café brasileiro nas principais marcas mundiais. “Entre 40% e 50% dos blends globais têm café brasileiro, seja arábica ou canephora. Além disso, aproximadamente 70% do material genético do café arábica plantado no mundo tem origem no Brasil, especialmente no Instituto Agronômico”, afirma. Ainda assim, Matos chama atenção para um ponto sensível: a valorização da imagem. “Muitas vezes, vemos variedades brasileiras sendo utilizadas em outros países, que acabam promovendo seus cafés como superiores. Isso mostra como marketing e posicionamento são fundamentais.”
No campo econômico, os números recentes reforçam a relevância da cadeia. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 40 milhões de sacas, com queda de 20,8% em volume, mas crescimento em valor, alcançando 15,6 bilhões de dólares, o equivalente a 87 bilhões de reais. “Quase 10% de tudo que o agro brasileiro exportou veio do café. É uma cultura essencial para milhares de famílias em 39 regiões produtoras”, ressalta.
Mesmo diante de margens apertadas, a cadeia mantém um alto nível de retorno ao produtor.
“Cerca de 92% a 93% do valor FOB das exportações retorna ao cafeicultor. Isso mostra o grau de integração do setor, mas também evidencia como os custos no Brasil impactam a competitividade”, observa. Nesse contexto, a agregação de valor surge como caminho estratégico. Cafés diferenciados, seja por qualidade ou sustentabilidade, alcançam preços até 30% superiores. “Quando trabalhamos com commodities, a rentabilidade está em centavos. Já nos produtos industrializados, a margem pode chegar a 15% ou 20%. Precisamos avançar nessas duas frentes.”
Para isso, o ambiente regulatório é decisivo. Matos aponta preocupações com a implementação da reforma tributária e possíveis inseguranças jurídicas. “Conseguimos incluir o café na cesta básica, garantindo isenção de tributos como IBS e CBS. Mas há sinais de revisões que podem gerar instabilidade. O que o Congresso aprova precisa ser respeitado, senão muda completamente o jogo para o setor”, alerta.
Além da tributação, a agenda de acordos comerciais e promoção internacional também é vista como essencial para ampliar mercados e fortalecer a imagem do café brasileiro. Nesse sentido, ele destaca a atuação conjunta de órgãos como Ministério da Agricultura, MDIC e ApexBrasil. “Temos visto iniciativas inéditas de promoção, como ações estruturadas em mercados estratégicos, que ajudam a posicionar o Brasil de forma mais assertiva no exterior.”
No entanto, é na infraestrutura logística que reside um dos principais gargalos. Em 2025, cerca de 1.824 contêineres de café deixaram de ser exportados por falta de capacidade portuária, gerando prejuízos estimados em 2,6 bilhões de dólares. “Além disso, 55% dos navios enfrentaram atrasos. Isso gera custos adicionais e compromete a competitividade do produto brasileiro”, afirma.
O problema se agrava diante das transformações no transporte marítimo global. “Os novos navios operam com capacidade acima de 20 mil contêineres, enquanto o Porto de Santos, principal do país, opera com média de 9 mil. Isso pode nos excluir das grandes rotas internacionais se não houver adaptação urgente”, alerta. Para ele, a questão vai além do café. “Estamos falando de um agro que pode produzir mais de 350 milhões de toneladas de grãos. Sem logística adequada, perdemos eficiência e receita.”
Apesar dos desafios, o executivo mantém uma visão otimista sobre o futuro do setor. “O Brasil vai seguir como líder absoluto. Temos um diferencial competitivo muito forte, que é a sustentabilidade aliada à qualidade do nosso café”, afirma. E conclui com uma mensagem clara: “Precisamos direcionar todos os esforços para valorizar o trabalho do produtor brasileiro e transformar essa liderança produtiva em liderança também na geração de riqueza.”


















