Agro brasileiro entre desafios e consistência

Para Carlos Goulart, o crescimento do setor exige políticas públicas contínuas, regulação eficiente e capacidade de adaptação diante de pressões internas e externas.

O agronegócio brasileiro consolidou, ao longo das últimas décadas, uma trajetória de crescimento robusto e consistente, independentemente de cenários políticos. Para Carlos Goulart, esse desempenho não é fruto apenas de vantagens naturais, mas de uma engrenagem complexa que envolve produção eficiente, diversidade estrutural e, sobretudo, a atuação estratégica do poder público.

“O agro cresce sustentavelmente ao longo dos governos. Isso não acontece apenas porque temos recursos naturais em abundância, mas porque sabemos produzir e porque há um papel fundamental do governo nesse processo”, afirma.

Um setor diverso por essência

Um dos pontos centrais destacados por Goulart é a heterogeneidade do agro brasileiro. O setor reúne desde pequenos produtores até cadeias altamente estruturadas e globalizadas, com níveis distintos de maturidade e desafios específicos.

“Nem tudo no Brasil é soja, milho e algodão. Temos cadeias como café, celulose e outras extremamente maduras, mas que ainda enfrentam desafios dentro e fora da cadeia produtiva”, explica.

Essa diversidade exige políticas públicas diferenciadas. Cadeias como leite, cacau, banana e camarão, por exemplo, demandam ações estruturantes, especialmente por sua sensibilidade a fatores como importações e oscilações de mercado.

“Há cadeias que precisam de um olhar mais atento do poder público. Acordos comerciais são positivos de forma geral, mas não são bons para todos os segmentos da mesma forma”, pontua.

Regulação como pilar de desenvolvimento

No campo regulatório, Goulart defende uma abordagem baseada em previsibilidade, transparência e continuidade. Segundo ele, avanços nesse sentido vêm sendo construídos ao longo dos últimos anos, com foco na simplificação e harmonização das normas.

“Regulação não se resolve em um mandato. Ela precisa ser contínua, preditiva, clara e objetiva”, destaca.

Entre os marcos recentes, ele cita a evolução de legislações importantes, como a Lei do Autocontrole, além de mudanças envolvendo insumos, bioinsumos e proteção de cultivares. Para o secretário, mais do que estabelecer regras, é essencial garantir que elas sejam aplicáveis e eficientes.

“O como fazer é tão importante quanto o que se quer atingir. Não basta ter metas, é preciso garantir uma boa execução”, afirma.

Sanidade: um desafio permanente

A defesa sanitária segue como uma das principais frentes de atuação do Ministério da Agricultura. Goulart compara o cuidado sanitário a um hábito diário indispensável.

“É como escovar os dentes: precisa ser feito todos os dias. A sanidade nunca deixa de ser um desafio”, diz.

Entre os principais pontos de atenção estão doenças como a influenza aviária e emergências fitossanitárias, incluindo pragas que afetam diferentes regiões do país. Ele ressalta que os impactos vão além da produção, atingindo também questões sociais.

“No caso da vassoura-de-bruxa, por exemplo, há populações que dependem diretamente de ações emergenciais para garantir a segurança alimentar”, explica.

Crédito e seguro rural: entraves históricos

Outro tema sensível é o crédito rural, apontado como um desafio estrutural de longa data. Para Goulart, a questão não pode ser atribuída a um único governo, mas deve ser tratada como uma política pública que exige modernização contínua.

“O crédito rural é uma das políticas mais antigas do país. Precisamos avançar na modernização do seguro rural e na ampliação do acesso ao crédito”, afirma.

Ele destaca que o diagnóstico do problema é consensual, mas a solução depende de articulação entre Executivo e Legislativo, além de espaço fiscal.

“No fim do dia, se o produtor não tiver renda e acesso a crédito, nada funciona”, resume.

Abertura e diversificação de mercados

No cenário internacional, o Brasil tem acumulado recordes na abertura de mercados. No entanto, Goulart ressalta que o desafio agora é transformar esse acesso em resultados concretos.

“Abrir mercado é importante, mas explorar mercado é mais importante ainda. Construir a porta é uma coisa, atravessá-la é outra”, diz.

A diversificação de parceiros comerciais aparece como estratégia fundamental, especialmente diante de barreiras regulatórias e movimentos protecionistas.

“Precisamos depender menos de mercados únicos e construir alternativas. Algumas cadeias têm mais flexibilidade para isso, outras exigem maior esforço diplomático”, avalia.

Resiliência e visão de longo prazo

Para Goulart, o sucesso do agro brasileiro está diretamente ligado à capacidade de adaptação e à busca constante por evolução. Ele destaca que o setor não opera por saltos abruptos, mas por avanços consistentes ao longo do tempo.

“O agro não tem ganhos disruptivos de uma safra para outra. É um processo contínuo de evolução, baseado em organização, paciência e resiliência”, afirma.

Essa resiliência, segundo ele, faz parte do DNA do produtor rural brasileiro, que alia inovação à capacidade de enfrentar adversidades.

“O produtor nunca está satisfeito com o que tem, e isso é o que impulsiona nossa excelência”, completa.

Perspectivas para 2026

Mesmo em um ano marcado por eleições, Goulart acredita na continuidade dos avanços. Ele reconhece que o calendário político tende a disputar atenção, mas não impede a evolução de políticas públicas e regulatórias.

“É um ano desafiador, mas ainda assim é possível avançar. O importante é manter o foco e seguir no trilho de crescimento”, afirma.

Com uma combinação de políticas estruturantes, aprimoramento regulatório e articulação entre setores público e privado, a expectativa é de que o agro brasileiro mantenha sua trajetória de expansão.

“O setor continuará sendo pressionado, especialmente por estar no topo. Mas é justamente essa posição que exige organização, capacidade de adaptação e construção de consensos para seguir avançando”, conclui.

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