Como presidente da FAESP/SENAR-SP, Tirso Meirelles defende um projeto de longo prazo para o Brasil, capaz de acompanhar a evolução tecnológica do campo, reduzir entraves estruturais e garantir previsibilidade ao produtor rural, que hoje sustenta o crescimento econômico do país.
O agronegócio brasileiro consolidou-se, nas últimas décadas, como um dos principais motores da economia nacional. Em São Paulo, esse protagonismo ganha contornos ainda mais estratégicos sob a liderança de Tirso Meirelles, presidente da FAESP/SENAR-SP, que tem direcionado sua gestão para a modernização do campo, a valorização do produtor e a construção de um ambiente mais competitivo para o setor.
Economista e administrador com forte atuação institucional, Meirelles representa mais de 420 mil propriedades rurais paulistas e tem defendido uma agenda baseada em inovação, integração de cadeias produtivas e fortalecimento de políticas públicas voltadas ao agro. Entre os principais marcos recentes de sua gestão está o lançamento do Projeto Integrar, considerado por ele um divisor de águas para o setor.
“Acredito que o grande projeto da minha gestão no último ano foi o lançamento do Projeto Integrar, o primeiro grande mapeamento da força de trabalho no setor agropecuário paulista. Com cerca de 100 mil propriedades já visitadas, já temos dados que mostram a relevância da produção de São Paulo e os desafios do produtor para se manter no campo”, afirma.
A iniciativa busca criar uma base sólida de informações para orientar decisões estratégicas e políticas públicas mais assertivas. Ao mesmo tempo, evidencia gargalos históricos, como a falta de conectividade no meio rural e a limitação de acesso a crédito e seguro agrícola. “Estamos na expectativa da conectividade em todas as propriedades rurais, compromisso do governador, cobrando do governo federal mais recursos para crédito e seguro”, completa.
Outro eixo central da atuação de Meirelles está na criação dos Centros de Excelência, que visam aproximar tecnologia e conhecimento dos produtores, especialmente pequenos e médios. Distribuídos em diferentes regiões do estado, os centros abrangem áreas como Big Data, Internet das Coisas, bioinsumos, turismo rural, cana-de-açúcar, bioenergia e agricultura familiar.

“Os primeiros dados do Projeto Integrar possibilitarão o desenvolvimento de políticas públicas para o meio rural; e a construção dos Centros de Excelência reforça esse caminho de inovação e desenvolvimento regional”.
Para o dirigente, a rápida transformação tecnológica do agro exige uma resposta estruturada e contínua. “O setor agropecuário vem se transformando de forma rápida, absorvendo mais tecnologia a cada dia. O investimento nos Centros de Excelência é uma resposta a essa demanda urgente, em especial para os pequenos e médios produtores.”
A agenda de inovação, no entanto, caminha lado a lado com desafios complexos. Após um ano marcado por incêndios que afetaram diversas regiões, a FAESP liderou a articulação de redes de apoio envolvendo órgãos públicos, entidades privadas e sindicatos rurais. O esforço resultou em ações concretas, como protocolos de prevenção, entrega de equipamentos e projetos de monitoramento integrado.
“Foi um período de construir redes de apoio, articulando com órgãos públicos, agências regulatórias, empresas e sindicatos rurais. Já temos resultados como uma nova lei em São Roque, a entrega de uma viatura da Defesa Civil e um protocolo para um centro de monitoramento em Ourinhos”, relata.
Além das iniciativas estruturais, Meirelles também investe no fortalecimento da liderança no campo, promovendo encontros e capacitações voltadas aos dirigentes sindicais. “O líder precisa inspirar as pessoas ao seu redor. No setor agropecuário, as lideranças rurais não apenas fortalecem as cadeias produtivas, mas ajudam na transformação das cidades e da realidade da população.”
Essa visão sistêmica do agro é reforçada por sua análise sobre o cenário nacional. Em um discurso contundente durante o evento Welcome Agro, Meirelles destacou o que chamou de “paradoxo brasileiro”: um setor altamente produtivo e tecnológico convivendo com entraves estruturais que limitam seu potencial.
“Queria aqui registrar que o Brasil tá vivendo um paradoxo brasileiro. Nós temos a maior agricultura voltada com tecnologia, inovação e produtividade. Em 50 anos, nós aumentamos 190% nas nossas áreas e crescemos 590% de produtividade.”
Apesar desse avanço expressivo, ele aponta que o ambiente macroeconômico e institucional não acompanha a evolução do campo. “Nós estamos presos num ambiente retrógrado, macroeconômico e institucionalmente falando, regulatório que parece caminhar em direção oposta ao desenvolvimento.”
Os números reforçam essa contradição. “Em 12 meses, o nosso crescimento foi em 2,6%, mas o agronegócio cresceu 13%. A indústria em torno de 1%, o comércio e serviço, 2%. Então você vê que o agro acelera e puxa o país para frente.”
O peso do setor também se evidencia nas exportações. “Estamos chegando a 170 bilhões de dólares. Tivemos praticamente quase 50% das exportações. Cada R$ 2 que entra no país, R$ 1 vem do agronegócio.”
Para Meirelles, o impacto do agro vai além dos indicadores econômicos. “90% dos municípios dependem do agro. Não tem uma outra atividade que tenha esse processo como um todo.”
Diante desse cenário, ele defende uma mudança de mentalidade e a construção de um projeto nacional de longo prazo, inspirado em exemplos internacionais.
“A estratégia coreana foi um plano estruturado de longo prazo, que articulou política industrial, crédito, inovação, educação, infraestrutura e comércio exterior. Isso não acontece por acaso.”
No Brasil, segundo ele, falta continuidade. “O país patina em ciclos curtos, planos que começam e não se completam, reformas que mudam a cada governo.”
A crítica se estende a temas como política fiscal, crédito rural e segurança jurídica. “Sem responsabilidade fiscal consistente, o crédito rural fica insustentável. O Plano Safra bate recorde de valores, mas só no papel.”
Ele também alerta para o impacto de decisões estruturais sobre o custo de produção. “A proposta de redução de jornada vai aumentar 40% a 60% o custo de produção do produtor. Quem vai pagar isso é o consumidor.”
Outro ponto sensível é a previsibilidade. “O agro pede previsibilidade e estabilidade. O produtor assume o risco. Nós pegamos nosso dinheiro e enterramos. Se não chover, perdemos. Se chover muito, perdemos. E ninguém vai lá nos ajudar.”
Para o presidente da FAESP, o caminho passa por reduzir os riscos institucionais e fortalecer o ambiente de negócios. “O país precisa reduzir os riscos institucionais. Brasil é uma potência agrícola. Precisamos escolher ser uma potência econômica estruturada.”
Nesse contexto, tendências globais também impõem novos desafios. A ampliação de acordos comerciais, como o entre União Europeia e Mercosul, deve elevar as exigências por sustentabilidade e rastreabilidade.
“Haverá uma cobrança maior por sustentabilidade e rastreamento dos produtos. A questão ambiental vai se tornar um grande fiel na escolha dos produtos para exportação”, afirma.
Segundo ele, o produtor paulista já avança nessa direção, com práticas como plantio direto e integração lavoura-pecuária-floresta. “As certificações serão um ativo importante, ratificando a preocupação com a sustentabilidade.”
Ao reunir dados, propostas e críticas, Tirso Meirelles reforça uma visão clara: o agro brasileiro já demonstrou sua capacidade de crescer e inovar, mas precisa de um ambiente mais estável e estratégico para alcançar todo o seu potencial.
“Precisamos de um projeto Brasil para o agro, para as cadeias produtivas, com um macro estável, fiscal, juros baixos, crédito modernizado. Temos todas as ferramentas para sermos independentes.”
Sua mensagem final sintetiza o desafio que se impõe ao país: “O produtor assume risco. O país precisa reduzir os riscos institucionais. Precisamos de um projeto Brasil que precisa ser despertado, pois esse ano será decisivo.”



















