El Niño acende alerta para a próxima safra

Com Pacífico em faixa forte, seca em 52% do país e previsão de chuva irregular até outubro, agro enfrenta janela sensível para plantio, energia, logística e queimadas

O novo El Niño avança em um cenário climático mais quente do que o observado nos grandes eventos anteriores. Depois de 2023, 2024 e 2025 figurarem entre os anos mais quentes já registrados, o fenômeno de 2026 começa sobre uma base de temperatura global elevada, sem retorno ao patamar anterior ao último grande episódio.

A leitura reforça uma mudança importante para o agro brasileiro: os efeitos do El Niño não ocorrem mais sobre o mesmo clima de décadas passadas. A elevação da temperatura média amplia a pressão sobre chuvas, secas, ondas de calor, disponibilidade hídrica, energia, logística e risco de queimadas.

O Carbon Brief descreve essa dinâmica como uma escada em movimento. A mudança climática eleva o degrau de base, enquanto grandes eventos de El Niño provocam saltos temporários para níveis ainda mais altos de temperatura. Foi o que ocorreu nos eventos iniciados em 1997, 2015 e 2023, que contribuíram para recordes globais nos anos seguintes.

Agora, o risco é que o padrão se repita em um patamar mais elevado. O Met Office, autoridade meteorológica do Reino Unido, considera muito provável que 2027 supere 2024 como o ano mais quente já registrado. As projeções citadas nas análises mais recentes colocam no horizonte temperaturas globais próximas de 1,7°C acima do período pré-industrial.

Pacífico já está em faixa forte

O aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial chegou a +1,8°C acima da média histórica, segundo leitura semanal da NOAA. O índice permanece na faixa de El Niño forte e está a 0,2°C do patamar classificado como muito forte, nível alcançado pelo evento de 2015-16.

O gráfico mostra a aceleração do fenômeno desde maio. A anomalia saiu de +0,4°C em 27 de maio para +1,8°C em 10 de agosto, mantendo o mesmo nível em 24 de agosto. A estabilização não reduz o alerta, porque o patamar atual já é suficiente para alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do Brasil.

Para o agro, a intensidade do El Niño é relevante porque eventos mais fortes tendem a acentuar contrastes regionais. O padrão esperado combina maior risco de chuva excessiva no Sul e maior probabilidade de tempo seco e calor acima da média no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste.

Essa divisão cria riscos simultâneos. Em uma região, o problema pode ser falta de chuva para plantio, irrigação e formação de lavouras. Em outra, excesso de precipitação pode atrasar operações de campo, aumentar pressão de doenças e comprometer logística.

Seca atinge mais da metade do país

Os sinais já aparecem no mapa da seca. Em julho, 52% do território brasileiro estava sob algum grau de seca, de fraca a excepcional, segundo o Monitor de Secas da ANA. A condição avançou em quatro das cinco regiões do país.

O Sudeste concentra a maior pressão, com 89,2% do território sob seca. Em seguida aparecem Nordeste, com 72,9%, Norte, com 51,1%, e Centro-Oeste, com 30,1%. O Sul foi a exceção, com apenas 3,5% da área sob seca, após forte reversão em relação ao mês anterior.

Essa inversão entre Norte e Sul é compatível com o comportamento típico do El Niño no Brasil. Enquanto o Centro-Norte tende a enfrentar redução de chuvas e maior estresse hídrico, o Sul fica mais exposto a precipitações acima da média, tempestades e interrupções operacionais.

Para produtores, cooperativas e agroindústrias, o dado indica que a próxima safra começa sob maior necessidade de gestão hídrica. A seca afeta lavouras de sequeiro, pastagens, reservatórios, irrigação, disponibilidade de água para agroindústrias e custo logístico em regiões dependentes de transporte hidroviário.

Rios da Amazônia pressionam logística

Na Amazônia, os rios seguem em queda na maior parte das estações monitoradas. Dez das onze estações avaliadas registraram recuo na última semana, com exceção do rio Acre, em Rio Branco, que voltou à faixa de normalidade.

O sinal mais sensível está em Roraima, onde o rio Branco apresenta cotas abaixo do normal para esta época do ano. Na região amazônica, a redução dos rios tem impacto direto sobre transporte de alimentos, combustíveis, insumos, medicamentos e pessoas.

Embora esse ponto não seja o centro da pauta agrícola nacional, ele pesa sobre cadeias que dependem da navegação regional. Em áreas onde a hidrovia funciona como principal infraestrutura de circulação, rios baixos encarecem fretes, reduzem capacidade de carga e podem isolar comunidades e polos produtivos.

Plantio entra em janela crítica

A previsão para agosto, setembro e outubro reforça a necessidade de atenção. O trimestre coincide com a janela de plantio da próxima safra e deve ter chuva abaixo da média em Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Apenas o Sul aparece com expectativa de precipitação acima da média.

No Norte, a previsão indica chuva abaixo da média, com déficit que pode chegar a 200 milímetros no extremo norte de Roraima. No Nordeste, o interior deve enfrentar intensificação do déficit, com armazenamento no solo abaixo de 40% da capacidade em outubro. No Centro-Oeste, a previsão aponta déficit acima de 130 milímetros e água no solo abaixo de 20% no norte de Mato Grosso e norte de Goiás.

No Sudeste, a deficiência hídrica pode superar 30 milímetros em áreas de Minas Gerais, Espírito Santo, norte de São Paulo e Rio de Janeiro. Já no Sul, o excedente hídrico pode passar de 150 milímetros por mês em setembro e outubro no Rio Grande do Sul, centro de Santa Catarina e sul do Paraná.

Para São Paulo e Minas Gerais, o risco recai sobre soja não irrigada, que pode enfrentar atraso no plantio ou necessidade de replantio se a regularização das chuvas demorar. No café, a preocupação envolve a florada, que pode perder uniformidade em condições de calor e irregularidade hídrica.

No Centro-Oeste, o tempo seco pode favorecer a colheita em determinadas culturas, mas aumenta o risco de queimadas, reduz a umidade do solo e exige cautela no planejamento da próxima janela agrícola.

Calor fica acima da média em todas as regiões

Julho já mostrou um país mais quente do que a média histórica. O Centro-Oeste registrou o maior desvio de temperatura, enquanto a chuva dividiu o Brasil em dois blocos: déficit no Norte e excedente no Sul.

Esse padrão reforça a assinatura do El Niño no país. O deslocamento da chuva para o Sul e a redução das precipitações no Norte e Nordeste criam um ambiente de maior volatilidade para a produção agropecuária.

No curto prazo, calor acima da média acelera evapotranspiração, reduz umidade do solo, pressiona pastagens e amplia a demanda por irrigação. Em culturas permanentes, pode interferir em fases sensíveis, como florada, enchimento de frutos e desenvolvimento vegetativo.

Energia entra no custo do agro

Os reservatórios do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que concentram cerca de 70% da energia armazenada do país, recuaram pela quarta semana consecutiva e chegaram a 59,6% da capacidade.

Reservatórios mais baixos aumentam o risco de maior acionamento de termelétricas, o que tende a pressionar o custo da energia. Para o agro, esse movimento afeta irrigação, armazenagem, refrigeração, processamento industrial, granjas, confinamentos, usinas e cadeias intensivas em eletricidade.

No Nordeste, os reservatórios monitorados para abastecimento humano operam próximos da metade da capacidade, com volume acumulado de 50,3%. Em uma região historicamente mais exposta à seca e aos efeitos do El Niño, a disponibilidade hídrica passa a ser variável crítica para propriedades, comunidades rurais e agroindústrias.

Fogo ganha força em agosto

A temporada de queimadas também entrou em fase mais crítica. Entre 1º e 24 de agosto, o Brasil registrou 13.811 focos de fogo, volume 9,1% acima do mesmo intervalo de 2025. No acumulado do ano, foram 39.557 focos, ainda 5,2% abaixo do mesmo período do ano anterior.

O dado de agosto muda a leitura do ano. Até julho, a tendência era de menor pressão em relação a 2025. Com a intensificação do fogo no mês, a vantagem acumulada encolheu.

A Amazônia passou o Cerrado em focos no mês, com 6.327 registros, enquanto o Cerrado somou 5.719. No acumulado anual, o Cerrado ainda lidera, com 16.679 focos, seguido pela Amazônia, com 14.139.

Para o agro, o avanço do fogo representa risco direto e indireto. Além de danos a pastagens, lavouras, cercas, benfeitorias e linhas de transmissão, queimadas podem comprometer logística, elevar custos operacionais, gerar perdas ambientais e ampliar exposição reputacional em cadeias monitoradas por critérios socioambientais.

Extremos atingem regiões opostas

A leitura dos eventos extremos reforça o caráter desigual do El Niño no território brasileiro. Enquanto parte do Norte, Nordeste e Sudeste aparece sob pressão de seca, o Sul concentra registros de chuva intensa, granizo, vendavais e municípios em situação de emergência.

No Rio Grande do Sul, tempestades desalojaram milhares de pessoas em agosto. Ao mesmo tempo, municípios de diferentes regiões tiveram reconhecimento federal de emergência por seca ou estiagem. O acumulado do ano já envolve milhões de pessoas em áreas sob decreto relacionado à seca.

Esse contraste é decisivo para o planejamento do agro. O mesmo fenômeno pode gerar falta d’água em uma cadeia produtiva e excesso de chuva em outra, afetando plantio, colheita, armazenagem, transporte, energia e abastecimento em momentos diferentes.

Safra exigirá planejamento climático

O avanço do El Niño em um planeta mais quente torna o planejamento climático mais estratégico para a próxima safra. A gestão de risco precisa ir além da previsão de chuva e incorporar decisões sobre janela de plantio, irrigação, seguro, logística, energia, prevenção de incêndios, manejo de solo, proteção de infraestrutura e contratos.

Produtores, cooperativas e agroindústrias devem monitorar a evolução do Pacífico, os boletins regionais de chuva e temperatura, os níveis de rios e reservatórios e os indicadores de queimadas. A velocidade de resposta pode definir perdas, custos e capacidade de cumprir compromissos comerciais.

A leitura central é que o novo El Niño não começa do zero. Ele se desenvolve sobre um clima global mais aquecido e já aparece em indicadores de seca, calor, rios, reservatórios e fogo. Para o agro brasileiro, a próxima safra será também um teste de adaptação operacional diante de extremos cada vez mais frequentes.

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