Depois de um 2025 marcado por safra recorde de grãos, avanços em biocombustíveis e forte presença do agro na balança comercial, o ano de 2026 se apresenta como um período de transição estratégica para o agronegócio brasileiro. O cenário combina fundamentos positivos de demanda global e protagonismo produtivo com um ambiente de negócios mais complexo, pressionado por custos elevados, incertezas climáticas, desafios logísticos e um contexto geopolítico instável.
A leitura é clara: 2026 exigirá disciplina financeira, capacidade de adaptação operacional e uma visão estratégica mais integrada entre produção, mercado, sustentabilidade e política institucional.
Ambiente econômico, custos e gestão financeira
As projeções para 2026 indicam um ano de margens mais apertadas para diversas cadeias do agro. De acordo com análises setoriais, juros elevados e restrição de crédito continuam a pressionar o endividamento, tornando o controle de custos e a excelência operacional fatores críticos de sobrevivência e competitividade.
Na avaliação de Sérgio Bortolozzo, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), o cenário é de cautela. “O momento atual do agronegócio brasileiro é de muita incerteza. Primeiro por causa dos custos, principalmente taxas e encargos financeiros. Para se fazer qualquer coisa, esses encargos acabam inviabilizando investimentos”, afirma.

Nesse contexto, a gestão de risco financeiro ganha centralidade. “Uma estratégia para neutralizar essa questão cambial é fazer uma trava de câmbio, pelo menos em relação aos possíveis custos da produção. Dessa forma vamos mantendo competitividade”, complementa Bortolozzo.
Clima, produtividade e tecnologia
O clima segue como uma variável decisiva para 2026. Eventos extremos, ondas de calor e irregularidade de chuvas continuam afetando produtividade e qualidade, exigindo respostas técnicas mais sofisticadas.
Para Marcos Antonio Matos, Diretor‑Geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os primeiros meses do ano são determinantes para o desempenho da safra. “Janeiro, fevereiro e março são meses críticos para o café. As chuvas e as temperaturas definem produtividade, qualidade e a incidência de defeitos”, explica.
A resposta do setor passa por tecnologia, inovação e adaptação. A análise de Marcos Fava, fundador da Markestrat e da Harven Agribusiness School, reforça que o uso de inteligência artificial, bioinsumos e novas tecnologias agrícolas será decisivo para elevar a rentabilidade por hectare e mitigar riscos produtivos em 2026.
Bortolozzo converge nessa avaliação ao afirmar que “a inovação, a produtividade e tecnologia têm sido o grande diferencial do agronegócio brasileiro”, com destaque para soluções mais resilientes ao déficit hídrico e investimentos em irrigação.
Mercado internacional, geopolítica e exportações
No comércio exterior, o agro brasileiro entra em 2026 sustentado por uma demanda global firme, ainda que sujeita a volatilidade. No caso do café, mesmo com volumes menores em 2025, a receita cresceu de forma significativa.

“Estamos 21% abaixo em volume, porém 25% acima em receita, já com US$ 14,3 bilhões, podendo chegar próximo a US$ 16 bilhões”, afirma Marcos Matos. Segundo ele, estoques historicamente baixos e consumo aquecido, inclusive em mercados tradicionais como a Europa, sustentam preços remuneradores ao produtor.
A diversificação de destinos também ganha relevância estratégica. “A China cresceu cerca de 30% em 2025, comprando pouco mais de 1 milhão de sacas do Brasil”, destaca Matos, ao mencionar a expansão para mercados asiáticos e o fortalecimento de parcerias comerciais.
Entretanto, a geopolítica impõe riscos adicionais. Conflitos internacionais, enfraquecimento de organismos multilaterais e tensões comerciais exigem uma postura estratégica do Brasil. “Nós temos que saber navegar em um cenário em que as organizações multilaterais estão enfraquecidas e o poder da maior barganha prevalece”, avalia Matos.
Logística: um gargalo estrutural
Se a demanda externa permanecer favorável, a logística será um dos maiores entraves ao crescimento do agro em 2026. A defasagem portuária e a limitação de infraestrutura comprometem embarques, elevam custos e reduzem a competitividade.
“O agronegócio cresce e os portos não evoluem na mesma dinâmica. Isso causa prejuízos porque atrasa embarques, o Brasil deixa de aferir receitas cambiais e ainda tem custos adicionais”, alerta Marcos Matos. Segundo dados do setor, bilhões de dólares deixaram de ser embarcados em 2025 por restrições logísticas.
Esse gargalo não é apenas conjuntural, mas estrutural, e exige coordenação entre setor privado e poder público para evitar que o Brasil fique fora das grandes rotas comerciais globais.
Sustentabilidade, ESG e acesso a mercados
A agenda ambiental deixa de ser apenas reputacional e se consolida como fator de acesso a mercados e mitigação de risco comercial. Novos regramentos internacionais, como o Pacto Verde Europeu, impõem exigências rigorosas de rastreabilidade e comprovação de sustentabilidade.
Para Matos, esse cenário também abre oportunidades. “O Brasil tem bancos de dados públicos e oficiais transparentes, tem cadastro ambiental rural, tem um aparato de informações que contam a favor”, afirma. Segundo ele, a rastreabilidade “veio para fortalecer e comprovar a sustentabilidade do Brasil”.
Na mesma linha, Bortolozzo destaca que “o produtor rural brasileiro já trabalha a questão da sustentabilidade com bastante folga”, citando práticas como plantio direto, curvas de nível e conservação do solo.
Política institucional, seguro rural e capital humano
A ausência de uma política robusta de seguro agrícola é apontada como um dos principais riscos para 2026. “O seguro rural é de extrema importância para o setor. Esse ano nós não temos seguro, estamos sem subvenção”, alerta Bortolozzo, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à mitigação de risco climático.
Outro desafio estrutural é a escassez de mão de obra qualificada. “O agro subiu de patamar e elevou a régua de preparo, portanto a falta de mão de obra qualificada se tornou um entrave grande”, afirma o presidente da SRB.
Nesse contexto, o papel das entidades representativas se intensifica. “A diplomacia empresarial e comercial tem sido fundamental para abertura de portas”, destaca Matos, ao citar a atuação direta do setor privado em negociações internacionais.
Estratégia, disciplina e protagonismo
As perspectivas do agro para 2026 apontam para um ano mais exigente do ponto de vista estratégico. Custos elevados, clima imprevisível, gargalos logísticos e incertezas políticas convivem com uma demanda global resiliente, oportunidades em biocombustíveis, tecnologia e novos mercados.
O desafio será transformar esse ambiente complexo em vantagem competitiva, combinando disciplina financeira, inovação tecnológica, gestão de riscos e atuação institucional ativa. Como sintetiza Marcos Fava, será um ano em que “o Estado precisa ser amigo do empresário”, garantindo previsibilidade, segurança jurídica e um ambiente favorável aos investimentos que sustentarão o protagonismo do agronegócio brasileiro nos próximos anos.
Riscos e oportunidades para o Agro em 2026
Riscos
- Pressão sobre margens e crédito caro – As projeções para 2026 indicam manutenção de juros elevados e maior seletividade no crédito rural, o que amplia o risco financeiro, especialmente para produtores e empresas mais alavancadas. A necessidade de eficiência operacional e controle rigoroso de custos se torna central para a sustentabilidade dos negócios.
- Volatilidade climática – Eventos extremos, como ondas de calor e irregularidade de chuvas, seguem como o principal fator de incerteza produtiva. A dependência do clima impacta volumes, qualidade e previsibilidade de receitas, exigindo investimentos em tecnologia, irrigação e manejo mais resiliente.
- Gargalos logísticos e infraestrutura – A defasagem portuária e a limitação da capacidade de escoamento continuam a gerar atrasos, custos adicionais e perda de competitividade internacional, especialmente em cadeias altamente exportadoras.
- Cenário geopolítico e comercial instável – Conflitos internacionais, tensões entre grandes economias e o enfraquecimento de organismos multilaterais aumentam o risco de barreiras comerciais, tarifas e volatilidade cambial, exigindo maior diversificação de mercados e gestão de risco.
- Insegurança jurídica e agenda política – A tramitação de temas sensíveis no Congresso e no Judiciário, aliada a um ano politicamente intenso, reduz previsibilidade para investimentos de longo prazo no campo.
Oportunidades
- Demanda global resiliente por alimentos e bioenergia – Mesmo diante de volatilidade, o consumo global de alimentos segue firme, com destaque para proteínas, café e produtos de maior valor agregado, além do avanço dos biocombustíveis.
- Biocombustíveis e transição energética – A ampliação das misturas de etanol e biodiesel, o avanço do etanol de milho e as perspectivas para SAF e combustíveis marítimos sustentáveis abrem novas frentes de investimento e geração de valor no campo.
- Tecnologia, IA e bioinsumos – A adoção de inteligência artificial, agricultura de precisão e bioinsumos permite ganhos relevantes de produtividade por hectare, redução de custos e maior resiliência frente ao clima.
- Acordos comerciais e diversificação de mercados – A consolidação de acordos internacionais e a expansão para mercados asiáticos e emergentes fortalecem a posição do Brasil como fornecedor global estratégico.
- Sustentabilidade como vantagem competitiva – Rastreabilidade, práticas regenerativas e bases de dados ambientais oficiais colocam o agro brasileiro em posição favorável para atender exigências internacionais e acessar mercados premium.
Ao longo de 2026, as decisões que definirão o rumo do Agro brasileiro exigirão leitura estratégica de cenário, troca qualificada entre lideranças e construção conjunta de caminhos.
Essa discussão ganha profundidade no Welcome Agro 2026, evento que reunirá CEOs, especialistas e formuladores de políticas para debater os riscos, ajustes e oportunidades que vão moldar o próximo ciclo do setor.
O Welcome Agro é um ambiente de networking estratégico, convergência de visões e geração de agendas práticas, conectando quem decide, quem investe e quem transforma o agro no Brasil.


















